Energia que não para: o vento da natureza que vai trazer segurança elétrica limpa
29/08/2026

Parque eólico em funcionamento em São Miguel do Gostoso — José Aldenir/Agora RN
O vento transformou o Rio Grande do Norte em uma das principais bases de geração elétrica do Brasil. O Estado possui 319 empreendimentos eólicos em operação, com 10,73 gigawatts de potência fiscalizada, segundo dados atualizados em 28 de agosto de 2026 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A capacidade equivale a mais de dez usinas nucleares do porte de Angra 2.
A participação potiguar tende a crescer. A base da Aneel registra 17 empreendimentos eólicos em construção, que somam 496,4 megawatts, e outros 39 com obras ainda não iniciadas, totalizando 1,50 gigawatt. Se toda essa carteira for concluída, o parque estadual poderá alcançar aproximadamente 12,72 gigawatts.
Os números, contudo, precisam ser lidos com cautela. A classificação “construção não iniciada” reúne projetos que receberam outorga, mas cuja entrada em operação depende de licenciamento ambiental, conexão à rede, financiamento, fornecimento de equipamentos e decisão dos investidores. Nem toda capacidade autorizada foi necessariamente contratada em leilões, e a outorga não representa garantia de execução.
Entre os projetos citados pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) em 2026 está o parque Ventos de São Rafael 10, com 58,5 megawatts. O empreendimento integra o ciclo mais recente de ampliação da oferta eólica no Estado, de acordo com documentos do Ministério de Minas e Energia (MME).
A contribuição da fonte para a segurança elétrica não decorre apenas do volume instalado. As eólicas diversificam a matriz, reduzem a dependência de uma única fonte e ajudam a preservar água nos reservatórios das hidrelétricas. Em períodos de vento favorável, a energia produzida no Nordeste pode ser transferida para outras regiões por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Essa integração permite que diferenças de clima, consumo e disponibilidade de geração sejam compensadas entre as regiões. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) afirma que a interligação dos subsistemas proporciona ganhos de segurança e reduz o custo global de operação.
A energia eólica respondia por aproximadamente 14% da capacidade do sistema nacional em dezembro de 2025, segundo o Plano da Operação Elétrica de Médio Prazo (Par/Pel) do ONS. O avanço muda a forma de administrar a rede: como a produção acompanha as condições meteorológicas, o operador precisa combinar previsões de vento, disponibilidade das linhas, consumo e resposta de hidrelétricas e termelétricas.
O crescimento da oferta expôs um problema econômico para os geradores: os cortes de produção, conhecidos no setor como curtailment. Eles ocorrem quando a energia disponível supera o consumo ou quando a rede não consegue transportar toda a eletricidade produzida.
O ONS sustenta que as restrições são necessárias em determinadas situações para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema. Seu planejamento também aponta que diferenças entre o desempenho previsto e o observado nas usinas podem aumentar os cortes sobre a geração renovável do Nordeste. Entre as soluções avaliadas estão reforços de transmissão, equipamentos para controle elétrico, previsões mais precisas e maior flexibilidade da demanda.
Portanto, segurança elétrica não significa que cada aerogerador produzirá ininterruptamente. Significa que o sistema dispõe de fontes, redes e instrumentos operacionais capazes de responder quando o vento diminui, o consumo aumenta ou uma linha fica indisponível.
A expansão da transmissão será decisiva para que os novos parques potiguares não agravem a oferta ociosa. Armazenamento em baterias, produção de hidrogênio de baixo carbono e instalação de consumidores industriais próximos aos polos de geração também aparecem como alternativas para absorver excedentes. Esses mercados, porém, ainda dependem de custos competitivos, contratos e regulamentação.
RN eólico em números
Dados da Aneel — Sistema de Informações de
Geração, em 28 de agosto de 2026: 319 empreendimentos em operação; 10,73 GW de potência fiscalizada; 17 empreendimentos em construção; 496,4 MW atualmente em obras; 39 projetos autorizados com construção não iniciada; 1,50 GW na carteira ainda sem obras; 56 projetos no conjunto das duas etapas de expansão; 1,99 GW de capacidade adicional autorizada; 12,72 GW seria a capacidade estadual caso toda a carteira seja concluída;
mais de 8,5 m/s é a velocidade média anual encontrada pela EPE em pontos do litoral norte potiguar, a 150 metros de altura.
O próximo horizonte está no mar
O litoral do Rio Grande do Norte coloca o Estado na fronteira da geração eólica offshore. Levantamento publicado em 2026 pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou pontos ao largo da costa norte potiguar com velocidade média anual do vento superior a 8,5 metros por segundo, medida a 150 metros de altura.
A EPE estima que o Brasil possui potencial técnico offshore próximo de 697 gigawatts em áreas com até 50 metros de profundidade. Trata-se de uma estimativa nacional de recurso físico, não de uma previsão de capacidade contratada ou de geração comercial.
No Rio Grande do Norte, o avanço marítimo exigirá estudos ambientais, definição das áreas, portos adaptados, cadeia de fornecedores e conexão de alta capacidade. Assim, enquanto o mar representa a possibilidade de uma nova escala para a indústria, a expansão concreta dos próximos anos continua concentrada nos parques terrestres já outorgados.
Agora RN
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