O jornalismo, a ética na polêmica entrevista de Sean Penn com El Chapo
13/01/2016

Por Érika Kokay / DW
Em um artigo publicado pela revista americana Rolling Stone, o ator Sean Penn descreve como conheceu Joaquín “El Chapo” Guzmán, o narcotraficante mais procurado pelos Estados Unidos. O mexicano, que havia fugido da prisão em julho de 2015, foi recapturado na última sexta-feira (08/01), um dia antes da publicação da entrevista.
O longo texto, contendo cerca de dez mil palavras e um vídeo de dois minutos, recebeu o seguinte título: “El Chapo fala – Uma visita secreta ao homem mais procurado do mundo”. A entrevista exclusiva, intermediada pela famosa atriz mexicana Kate del Castillo, foi feita em outubro, quando o criminoso ainda fugia das autoridades.
De acordo com Penn, El Chapo falou sobre a cooperação entre os militares mexicanos e o cartel de Sinaloa, liderado por ele, e também desabafou sobre seus pensamentos a respeito das implicações éticas de seu negócio, que diz ser o maior do planeta.
“Eu forneço mais heroína, metanfetamina, cocaína e maconha do que qualquer outra pessoa no mundo. Tenho uma frota de submarinos, aviões, caminhões e barcos”, clamou o traficante, segundo Penn. El Chapo também teria dito que passou a se envolver com o tráfico aos 15 anos porque era a “única maneira de ganhar dinheiro para sobreviver”.
Após a publicação da entrevista, porém, questões foram levantadas a respeito da decisão, tanto por parte da Rolling Stonequanto de Sean Penn, em lidar com um criminoso perigoso e procurado pela polícia – permitindo, inclusive, que El Chapo lesse e aprovasse o artigo antes de sua divulgação.
Nos Estados Unidos, o senador republicano Marco Rubio disse à emissora ABC que considera a entrevista “grotesca”. O político e advogado, que concorre à Presidência, insistiu na opinião de que El Chapo deve ser extraditado aos EUA.
Ética jornalística
Vários jornalistas também têm criticado os méritos éticos do artigo. “Chapo e Hollywood, Sean Penn? Claro, faz sentido. Apenas não chame isso de jornalismo”, escreveu no Twitter Alfredo Corchado, chefe do jornal americano Dallas Morning News no México.
“Chamar o encontro de Chapo com Sean Penn de entrevista é um insulto épico aos jornalistas que morrem em nome da verdade”, completou.
Corchado estava sendo literal em sua fala. Segundo a ONG Repórteres sem Fronteiras, o México é um dos países mais perigosos do mundo para jornalistas: “Eles são ameaçados e assassinados pelo crime organizado e por oficiais corruptos impunes”. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) afirma que, desde 1992, mais de 80 jornalistas foram mortos no país.
Marty Baron, editor-executivo do Washington Post, também aproveitou o artigo de Sean Penn para atentar ao fato. “Ótimo momento para lembrar o que acontece com os jornalistas que cobrem o tráfico de drogas no México”, escreveu o jornalista, também no Twitter.
Atores foram monitorados?
