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RN soma 233 mil novas unidades de geração solar distribuída desde 2024

10/10/2026

Expansão da energia solar reduz gastos dos consumidores e amplia o uso de fontes renováveis, mas exige investimentos na rede e soluções para evitar sobrecargas e cortes na geração de grandes usinas | Foto: Alex Régis

 

A geração solar distribuída acrescentou 233.260 novas unidades à rede do Rio Grande do Norte entre 2024 e 2026 (até outubro), segundo dados da Neoenergia Cosern. O estado soma atualmente 288.807 unidades, entre geradoras e beneficiárias, com média de 140 gigawatts-hora (GWh) de energia injetada na rede por mês. Embora contribua para a redução dos gastos com energia para pequenos consumidores e amplie o uso de fontes renováveis, a expansão também impõe desafios ao sistema elétrico e impacta na produção de grandes usinas, podendo contribuir para os cortes de geração, os chamados curtailment.

Em 2026, já foram conectadas 42.147 unidades até outubro. Em todo o ano de 2025, foram 131.487 conexões e, em 2024, 60.026 até o fim do ano. A expectativa da Neoenergia Cosern é alcançar 1.680 GWh ao longo de 2026.

Natal, Mossoró e Parnamirim concentram o maior número de unidades de geração solar distribuída no estado, nessa ordem. A maior parte está na classe residencial, que representa 83,96% do total. Em seguida, aparecem as unidades comerciais, com 12,47%, e as rurais, com 2,84%. As demais classes correspondem a 0,73%.

A Neoenergia Cosern atribui o crescimento à expansão nacional da geração distribuída, impulsionada pela ampliação do uso de fontes renováveis.

Segundo José Luiz França, superintendente técnico da Neoenergia Cosern, o crescimento acelerado da geração distribuída exige adaptações na rede elétrica para garantir a segurança e a qualidade do fornecimento.

A concentração da produção solar em determinados horários pode provocar inversão do fluxo de energia, sobrecarga em transformadores e circuitos e variações de tensão.

Para acompanhar essa expansão, a distribuidora prevê investir R$ 4,1 bilhões na infraestrutura elétrica do estado, com ações de modernização, automação e digitalização.

“A atuação da Neoenergia Cosern busca assegurar a expansão da energia solar com segurança, confiabilidade e qualidade no fornecimento a todos os potiguares”, afirma José Luiz França.

Para Sérgio Azevedo, presidente do Conselho de Energias Renováveis da Federação das Indústrias do RN (Coere/Fiern), o crescimento da geração distribuída precisa ser acompanhado de mudanças nas regras do setor elétrico. Segundo ele, a redução dos custos dos equipamentos e os incentivos regulatórios, contribuíram para a expansão da modalidade.

“O que precisamos discutir agora é se os incentivos continuam adequados diante da maturidade alcançada pela tecnologia e dos impactos que seu crescimento produz no sistema elétrico”, defende Sérgio Azevedo.

O presidente do Coere/Fiern também explica que a geração distribuída reduz a necessidade de compra de energia da rede para quem instala os sistemas, mas pode aumentar a complexidade da operação elétrica.

“O armazenamento em baterias é uma das alternativas mais importantes: permite absorver o excedente solar durante o dia e disponibilizar essa energia nos períodos de maior demanda”, considera.

Cortes nas grandes usinas

O crescimento da geração solar distribuída pode aumentar a pressão sobre o sistema elétrico e contribuir para os cortes de produção das grandes usinas solares e eólicas, conhecidos como curtailment.

Nessas situações, pode ser necessário reduzir a produção de grandes usinas solares e eólicas, o que provoca perdas de receita para os empreendimentos.

Sérgio Azevedo defende mecanismos de ressarcimento aos geradores. “Não é razoável transferir integralmente para a geração centralizada o custo de uma condição sistêmica associada ao crescimento da geração distribuída”, afirma.

De acordo com Darlan Santos, presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), a expansão dos pequenos sistemas de geração alterou a dinâmica de atendimento à demanda e ampliou os desafios de operação da rede elétrica.

Darlan explica que a geração distribuída está conectada à rede de distribuição local, enquanto as grandes usinas (geração centralizada) estão ligadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Apesar da diferença, os sistemas se interligam. “O forte crescimento da geração distribuída fez com que, em muitos momentos, a energia gerada localmente fosse maior do que o consumo da região”, afirma.

Quando isso ocorre, o excedente pode retornar à rede de transmissão, em um fenômeno chamado inversão de fluxo. “Esse cenário tem sobrecarregado a rede e contribuído fortemente para a necessidade de cortes na produção das grandes usinas eólicas e solares”, declara.

Ele também aponta aponta uma diferença na gestão dos dois modelos. Enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pode determinar a interrupção temporária da geração das grandes usinas para manter o equilíbrio do sistema, não há uma gestão direta sobre os milhares de sistemas individuais de geração distribuída.

Como alternativas para equilibrar os dois segmentos, o Cerne defende a ampliação do monitoramento e do controle remoto das redes pelas distribuidoras, o incentivo ao uso de baterias para armazenar energia e mudanças nas regras de preços para estimular o consumo ou o armazenamento nos períodos de saturação da rede.

“Avaliamos como alternativas essenciais: a ampliação da telemetria e do controle remoto das redes pelas distribuidoras, o incentivo imediato ao uso de baterias para armazenar energia e a melhoria nas regras de preços, estimulando o consumo ou o armazenamento exatamente nos momentos em que a rede está saturada”, destaca o presidente do Cerne.

Regras influenciam na tarifa de energia

A expansão da geração solar distribuída também tem efeitos sobre a composição da tarifa de energia. Conforme a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), parte dos custos de utilização da rede que deixa de ser arrecadada de determinados consumidores com geração própria é recuperada nas tarifas pagas pelos demais usuários. Esse mecanismo é conhecido como subsídio cruzado.

A forma como esses custos são divididos depende das regras que se aplicam a cada sistema de geração. Os consumidores enquadrados na GD (Geração Distribuída) I, que já tinham instalações ou solicitaram acesso à rede até 7 de janeiro de 2023, continuam tendo direito a condições mais vantajosas para abater da conta de luz a energia que produzem e enviam à rede.

Para os sistemas da GD II, conectados às regras estabelecidas após 2022, a cobrança pelo uso da rede ocorre de forma gradual. Uma das parcelas cobradas é a TUSD Fio B, componente da tarifa relacionada à infraestrutura de distribuição de energia, como os equipamentos e as instalações que levam eletricidade até os consumidores.

Já os sistemas classificados como GD III seguem regras específicas que buscam aproximar a compensação recebida pelos geradores dos custos que eles impõem à rede elétrica.

“A legislação e a regulação mais recentes caminham no sentido de reduzir gradualmente os subsídios cruzados observados nos primeiros ciclos de expansão da MMGD (Micro e Minigeração Distribuída), buscando maior equilíbrio entre consumidores com e sem geração própria”, defende a ANEEL.

Consumiores percebem redução na conta de luz

A família do estudante Lucius Dantas mora em Parnamirim e instalou placas solares em casa, em 2021, para reduzir os gastos com energia elétrica. Segundo ele, a economia mensal ultrapassa R$ 800. A decisão também levou em consideração os incentivos fiscais disponíveis na época e a possibilidade de usar o valor economizado na conta de luz para pagar o financiamento do sistema.

“Na nossa época, a gente também pegou um incentivo fiscal, mas isso mudou recentemente. A ideia era instalar as placas e pagar o financiamento com o mesmo valor que a gente gastava na conta de energia”, explica Lucius.

A redução dos gastos com energia também foi o principal motivo para o técnico em informática Carlos Henrique investir em painéis solares em sua residência, em Natal. Com a instalação, a conta de luz dele passou de R$ 450 para cerca de R$ 120 por mês. “Aqui eu uso muitos computadores em casa, pelo meu trabalho, e as placas ajudaram muito a reduzir a conta”, revela.

Moradora de Parnamirim, a psicóloga Solange Pinheiro utiliza energia solar há cerca de um ano e meio e afirma que a mudança trouxe mais liberdade para a família usar equipamentos elétricos sem a mesma preocupação com o valor da conta de luz. Ela também destaca a contribuição ambiental da fonte renovável. “Nos sentimos, enquanto família, mais livres para usufruir de bens elétricos sem aquela questão de você ficar preocupada de exceder o seu orçamento”, relata.

 

Repórter/Ananda Miranda

tribuna do Norte

 

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