Cuidando de quem cuida: estratégias de autocuidado para mães em oncologia pediátrica
30/09/2026

Gilvania Guedes Teixeira Véras - Psicóloga da Casa Durval Paiva - CRP: 17/4268
No cenário da oncologia pediátrica, a figura materna, frequentemente, assume o papel de cuidadora principal, mergulhando em uma rotina extenuante de internações, exames e protocolos terapêuticos que parecem não deixar brechas para o olhar sobre si. Essa dedicação integral, embora movida pelo afeto, é atravessada por um profundo sentimento de culpa, no qual qualquer tentativa de autocuidado é erroneamente interpretada como negligência ou egoísmo.
Como aponta a literatura da área, "o impacto do diagnóstico de câncer em um filho desorganiza a estrutura familiar e impõe à mãe uma sobrecarga que, muitas vezes, anula suas próprias necessidades básicas" (GUALDA; TAVARES, 2021). Somado a isso, o julgamento externo e a pressão social por uma maternidade sacrificial impõem barreiras invisíveis, tornando o autocuidado não apenas uma dificuldade logística diante das demandas hospitalares, mas um desafio psicológico severo que precisa ser discutido sob a ótica da saúde mental e do suporte social.
A rotina de uma mãe acompanhante é marcada por uma fragmentação do tempo e uma hipervigilância constante. Entre a administração de medicamentos e a espera por resultados, o autocuidado acaba sendo relegado ao plano da impossibilidade prática. Além das barreiras físicas, o componente psicológico da culpa atua como um censor implacável; existe uma construção social de que a "boa mãe" deve se anular completamente.
Segundo Maldonado (2017), é fundamental compreender, que o bem-estar da mãe é o alicerce para o equilíbrio emocional da criança, pois uma cuidadora exausta tem seus recursos de resiliência severamente comprometidos. Esse olhar crítico reforça a ideia de que o cuidado de si seria uma traição ao vínculo materno, ignorando que a sustentabilidade do amparo oferecido depende da integridade psíquica de quem cuida.
Existe uma construção social de que a "boa mãe" deve ser aquela que se anula completamente diante do sofrimento do filho, e qualquer desvio dessa entrega total é frequentemente alvo de julgamentos externos, seja da família, da equipe de saúde ou da sociedade em geral.
O estigma de que cuidar de si é um ato de egoísmo acaba por aprisionar essas mulheres em um ciclo de privação e sofrimento psíquico silencioso.
Para romper com esse ciclo de exaustão, é imperativo que o autocuidado seja ressignificado não como um luxo, mas como uma estratégia de manutenção da saúde mental e física da cuidadora. O suporte social e as intervenções em Psico-oncologia devem oferecer ferramentas que permitam a essas mães encontrar pequenos espaços de respiro dentro da rotina hospitalar, validando suas necessidades individuais sem a sombra da punição emocional.
De acordo com os preceitos da Psico-oncologia moderna, "a criação de espaços de fala e escuta para cuidadores é uma intervenção terapêutica que previne o adoecimento psíquico e fortalece a rede de apoio ao paciente" (BENEVIDES-PEREIRA, 2012). Quando a rede de apoio assume tarefas práticas e acolhe o cansaço materno sem julgamentos, ela viabiliza uma assistência mais humanizada. Afinal, a sustentabilidade do cuidado oferecido à criança depende diretamente da integridade psíquica de quem a acompanha, tornando o zelo pela mãe um pilar essencial do tratamento oncológico pediátrico.
A implementação de redes de apoio estruturadas, como o Grupo de Mãos Dadas da Casa Durval Paiva, revela-se essencial para transformar a jornada dessas mulheres, oferecendo um espaço seguro de escuta e validação mútua. Ao incentivar o compartilhar de experiências semanalmente, esses grupos combatem a solidão do cuidado e promovem a saúde mental através da identificação entre pares, desconstruindo a culpa e o julgamento social.
A atuação contínua dessas iniciativas durante todo o ano assegura que o autocuidado físico e emocional seja estimulado de forma permanente, garantindo que a mãe-acompanhante recupere sua identidade e força. Assim, ao fortalecer quem cuida, as instituições não apenas amparam a família, mas qualificam todo o processo de cura e resiliência no enfrentamento do câncer infantojuvenil.
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